Tateei a minha bermuda a procura de algo
útil, havia sangue por todos os lados e palavras que para mim eram
simbólicas eram derramadas como ferro em brasa sobre o meu corpo. A dor
se alastrava de um ponto ao outro, corroendo toda a minha felicidade.
Estava só e pude sentir o desespero me invadir, consumir e por vim me
apavorar. Depois daquele dia não fui mais o mesmo. Era como se um vazio
insuportavelmente grande me consumisse passo após passo, as paredes de
carne não era mais as mesmas, e o meu coração? Será que ele realmente
estava ali? Não o sentia há dias, há meses, há anos. Meus pensamentos se
perderam, e assim junto com o meu espirito retornei a “realidade”. O
sangue em minha roupa me fez pensar por um momento que havia feito algo
terrível, até que percebi meu reflexo no espelho. Havia marcas enormes
em meus braços, arranhões pelo rosto e um corte profundo em minha perna,
de onde o sangue insistia em continuar a jorrar. Surpreendentemente, eu
não sentia nada. Era como se, de alguma forma, eu estivesse
anestesiado. Tinha conhecimento pleno de que meu corpo sofria. Mas
aquela dor era menos que nada se comparada à que sentia em minha alma
estilhaçada tal qual um espelho que se desfaz ao cair no chão. Havia um
mostro dentro de mim podia sentir cada pontada de liberdade que era
emanada de dentro para fora. Por um momento meu coração silenciou-se,
meu corpo foi tomado por um arrepio intenso, até que um frio na espinha
fez meu coração retornar aos batimentos voluptuosos. Corri de um lado
para o outro, o quarto onde estava fervia, precisava consumir algo,
agora não suportava mais, talvez estivesse realmente perdido. Não era
humano o que fazia, sentia êxtase pelo estado em que se encontrava,
sentia prazer com as convulsões que meu corpo me proporcionava, assim
fazendo-me vomitar quase litros de sangue. Havia encontrado o que estava
procurando, um maço de tabacos, escondido em baixo de um dos
travesseiros que estavam estraçalhados, assim deixando as penas que
havia dentro do mesmo, banhadas com sangue […] O tabaco havia sido
consumido rapidamente assim ostentando certa paz me meu coração, por um
momento estava só, até me olhar novamente no espelho, o que eu via era a
figura de um mostro […] Minha mente foi se silenciando, estava
agoniado, ferido. Faltavam poucos minutos para que a morte chegasse a
mim, e assim, poderia partir dali sem nenhum arrependimento.
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